08/10/2026
Diz tudo.Gostei.
O problema com Cristiano nunca foi aquecer ou não aquecer, entrar ou não entrar. Um jogador com milhões de quilómetros nas coxas, que é sempre dos primeiros a chegar e dos últimos a sair dos treinos, não se cansa de correr. Mesmo que hoje já não corra como corria.
Cristiano deu claros indícios de estar farto.
Quando os machos mais novos sentem o velho alfa fraquejar, aproximam-se do lugar que ele ocupava. E é difícil não reparar na euforia de Bruno Fernandes ao assumir a liderança. Quanto a mim, é demasiado evidente para passar despercebida até a um biólogo amador.
O que levou Cristiano a abandonar a Seleção não foi, portanto, um caso isolado. Foi um conjunto de situações, de atitudes e de ações, acompanhado por uma enorme lacuna comunicacional de um treinador que não tem, nem de longe nem de perto, o dom da palavra, mas insiste em aprofundar pensamentos caóticos sempre que lhe colocam um microfone à frente.
Se há coisa que qualquer ser humano deveria ter aprendido com a História é que a humildade é uma qualidade, não uma fraqueza.
Quando alguém diz publicamente frases como “Aqui mando eu”, “Não peço desculpa de nada, nem a ninguém” ou “Cristiano é um símbolo”, entre uma série de outras declarações que acabam por reduzir um atleta a uma espécie de marioneta, a conclusão a que o jogador pode chegar é relativamente simples:
Eu já não estou aqui pela minha qualidade enquanto jogador. O país está dividido sobre o que fazer com a minha cabeça numa bandeja. O balneário transformou-se num ninho de cobras ou numa matilha de hienas. E, sinceramente, sinto-me como um assassino em série sentado no banco dos réus em todas as conferências de imprensa.
Foi isto, na minha leitura, que levou Cristiano a abandonar a Seleção.
E acrescento o facto surreal de, três ou quatro dias volvidos, aparecerem todos em uníssono a dizer que Cristiano merece sair pela porta grande. Pela Porta de Ishtar, da antiga Babilónia.
Quando tudo, e repito, tudo, o que fizeram nas ações contradiz essa mesma premissa.
Ora bem, Cristiano não é apenas um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos. É uma marca internacional carregada de patrocinadores, é pai de família e uma referência para as gerações mais novas.
Obrigado
Cris.