24/09/2026
Hoje faria anos Vicente Lucas, magriço e lenda do Belenenses. Quem o viu jogar?
Irmão mais novo de Matateu, Vicente Lucas foi um defesa central nascido em Moçambique que surgiu na equipa principal do Belenenses em 1954-55 e que por lá ficou até pendurar as botas.
“Eu estava em África e tinha 17 anos quando recebi uma carta dele a dizer que o Belenenses estava interessado em mim. Eu pensei que fosse um Belenenses lá de Lourenço Marques (Maputo), mas não, era o dele, o de Lisboa. Um dia foi lá o Américo Tomás (presidente do Belenenses, que viria a ser presidente da República Portuguesa) e o capitão Soares da Cunha, que era diretor do Belenenses e viria a ser o presidente responsável pela construção do Estádio do Restelo. Depois de ouvirem algumas vozes dizer ‘o gajo é bom’, trouxeram-me para Lisboa. Assim, sem pagar ou pedir licença ao clube onde eu jogava. Deram 30 contos à minha mãe, um dinheirão, pediram para eu estar pronto no dia X e ir ter ao barco para vir para Lisboa. Quase nem me despedi da família. Fui eu e outro meu irmão mais velho. O barco estava cheio, e éramos cinco num camarote, mas lá cheguei a Lisboa. Tinha o Matateu à minha espera. Ele era um bom irmão, a alegria em pessoa, o brincalhão do balneário”, recordou ao Diário de Notícias em agosto de 2018.
“O Belenenses jogava nas Salésias e tinha o único relvado de Lisboa, e eu estava habituado a jogar no pelado, descalço ou de botas. Tive de me adaptar a jogar num campo fofinho e de chuteiras. Apesar disso, o Riera viu-me a treinar com o meu irmão e disse ‘gajo é bom, é para ficar’. Se não fosse ele eu tinha sido recambiado no mesmo barco que me trouxe a Lisboa. A bola era dura na mesma. Acabava os jogos com uma dor de cabeça...”, acrescentou.
Em 12 anos com a camisola azul, entre 1954 e 1966, amealhou um total de 286 jogos (todos a titular, até porque não existiam substituições) e 12 golos na I Divisão, tendo conquistado a Taça de Portugal em 1959-60 e contribuído para a obtenção do segundo lugar no campeonato em 1954-55 e da terceira posição em quatro ocasiões (1955-56, 1956-57, 1958-59 e 1959-60).
Paralelamente, somou 20 internacionalizações pela seleção nacional A, tendo ficado famoso por secar Pelé num encontro frente ao Brasil no Mundial 1966, torneio que Portugal concluiu em 3.º lugar.
“Acabei a carreira sem ver um único cartão em 11 anos. Depois fui o Corta Vicente. Na altura, o futebol era rei na rádio. Nos relatos, quando iam descrever um lance meu, era sempre a mesma coisa: ‘Corta, Vicente.’ Ainda hoje é uma forma carinhosa de me lembrarem o jogador que fui. Se cortas ou roubas a bola ao Pelé tens o currículo feito, mas eu fui mais do que isso”, afirmou.
Em 1981-82 chegou a orientar o Belenenses durante alguns jogos, numa época que ficou marcada pela primeira descida de divisão da história do clube.
Saiba quais são os outros jogadores entre os 10 com mais jogos pelo Belenenses na I Divisão e leia mais aqui: https://davidjosepereira.blogspot.com/2021/09/belenenses-zerozero-quaresma-jose-pereira-serafim-das-neves-feliciano-vicente-godinho-matateu-marco-aurelio-amaro-freitas.html