10/10/2026
Há uns tempos, um colega de profissão, empresário do ramo, fez-me uma pergunta que ficou na cabeça. «Como é que consegues ter esta procura toda na Tendinha?»
A verdade é que não tenho segredos. Hoje em dia, os diamantes já estão todos descobertos, não vale a pena fingir que inventámos a pólvora. O que existe é uma maneira de estar na vida e de fazer as coisas.
Na Tendinha, somos aquilo que somos. Uma tasquinha pequena, de aspeto rasca e banal, sem grandes luxos, sem cenários de revista e sem a mania de que somos melhores do que os outros. Mas somos honestos. Os preços estão à vista de todos, são preços de tasca, pensados para a nossa realidade económica portuguesa, para quem vive e trabalha cá, e não apenas para quem vem de férias com outra carteira. Não temos preços para uns e preços para outros. A mesa ao lado paga o mesmo que tu.
Depois há uma coisa que muita gente parece esquecer. Os locais continuam cá. Há madeirenses que gostam de comer como sempre comeram, sem grandes invenções, sem transformar cada prato num espetáculo e sem precisar de pagar uma fortuna para almoçar. E há turistas que já perceberam que, para conhecer verdadeiramente um lugar, não basta fotografar paisagens e comer nos sítios feitos para aparecer nas fotografias. Também querem encontrar a Madeira de verdade, aquela que ainda tem sabor a casa, a família e a cozinha de antigamente.
Será que isto é um segredo? Não. É simplesmente não complicar aquilo que deve ser simples.
E depois há a parte de que pouco se fala. A procura é tanta que, por vezes, chegam-nos às centenas de pessoas num só dia, entre quem passa, quem regressa e quem nos recomenda a outros. E eu não consigo servir toda a gente. Há dias em que tenho de olhar uma pessoa nos olhos e dizer-lhe que, infelizmente, hoje já não é possível. E custa-me. Custa-me porque sei que aquela pessoa também veio de propósito, também queria conhecer a Tendinha e também merecia ter a oportunidade de se sentar à nossa mesa.
Mas há uma realidade que temos de aceitar. Somos uma tasquinha pequena, com espaço limitado, mesas limitadas e uma capacidade que não estica só porque a procura aumenta. Não queremos crescer à força, multiplicar mesas, mudar a nossa maneira de trabalhar ou transformar a Tendinha numa coisa que nunca quisemos ser.
Preferimos continuar pequenos e ser fiéis àquilo que somos do que crescer e deixar de ser a Tendinha.
Não temos um segredo escondido numa gaveta. Temos trabalho, honestidade, preços que fazem sentido, comida à nossa maneira e uma identidade que não foi inventada por uma agência de marketing. E, pelos vistos, ainda há muita gente à procura disso.
A Tendinha pode ser rasca e banal no aspeto. Está no próprio nome e nunca tivemos complexos com isso. Mas há uma diferença entre parecer banal e ser igual a todos os outros.
E talvez seja precisamente aí que esteja a resposta à pergunta do meu colega.
Não tentamos agradar a toda a gente. Tentamos não enganar ninguém. E, pelos vistos, há muita gente que dá valor a isso.
Obrigado a todos os que nos procuram, aos que regressam e aos que falam de nós a outros. E àqueles a quem, por falta de espaço, já tivemos de dizer que não conseguimos servir, f**a o nosso pedido de desculpa. Não é falta de vontade. É mesmo falta de mesas.
A Tendinha continua a ser aquilo que sempre foi. Uma tasquinha pequena, de aspeto rasca e banal, onde não prometemos milagres, mas onde tentamos fazer as coisas com honestidade, todos os dias.
Depois de lermos este comentário no Instagram com fotos, ficámos a pensar. E percebemos que talvez estivesse na altura de explicar, à nossa maneira, o que está por detrás da procura pela Tendinha. Não há segredos, não há fórmulas mágicas. Há uma realidade que nem sempre se vê do lado de fora.
Hoje, almocei no A Tendinha, no Funchal — um lugar que frequento fielmente desde muito antes da Covid.
Ontem, ao reservar minha mesa para hoje, o dono me disse:
"Amanhã vamos preparar um prato especial para um grupo de gastrônomos locais. Se quiser, pode aproveitar também."
Nem preciso dizer que respondi na hora:
"Com muito prazer!" 😄
E que ótima ideia.
Hoje, o terraço estava reservado exclusivamente para esse grupo e, graças a esse convite, pude provar um prato que não consta no cardápio: frango, carne de porco e carne bovina juntos no mesmo prato, com feijão preto, legumes e batatas.
Uma verdadeira comida caseira, sem frescuras, mas absolutamente deliciosa.
O frango: bem crocante.
A carne de porco com pele: macia a ponto de desmanchar, quase tremelicando, cheia de colágeno.
E a carne bovina, preparada como pedi — malpassada no ponto certo: extremamente macia.
Viu só? Ser fiel a um bom lugar às vezes traz recompensas! Só venho à Madeira uma vez por ano, mas, durante minha estadia no Funchal, almoço aqui quase todos os dias. E hoje, essa fidelidade me garantiu um privilégio bem bacana. 😊
E agora, o detalhe que quase dá um nó no cérebro:
🍺 uma cerveja Coral de aperitivo
🥣 a sopa do dia
🍷 uma dose dupla de vinho tinto
🍗🐖🥩 esse prato principal generoso
… por 19 €.
Sim, 19 €.
Nesse nível, já não é um preço, é uma anomalia do sistema. 😂
Depois da França, onde tudo me pareceu tão caro, a Madeira faz muito bem... tanto ao ânimo quanto ao bolso! Obrigado a toda a equipe do A Tendinha por este almoço delicioso e, acima de tudo, por este convite adorável.
Um verdadeiro momento de felicidade, simples e autêntico.
Muito obrigado — e até breve! 😋