10/07/2026
MEMÓRIAS MUSICAIS: Dona Tututa – A Alma de Mindelo dedilhada nas teclas de um Piano
Dizem que Mindelo não é apenas uma cidade; é um estado de espírito embalado pela brisa da Baía do Porto Grande e pelas melodias que fizeram de São Vicente um dos grandes berços da música cabo-verdiana. Se esse espírito pudesse ser traduzido num único instrumento, seria, sem dúvida, o piano de Epifânia de Freitas Silva Ramos Évora (1919–2014), eternizada para todos nós como Dona Tututa.
Nascida no Mindelo, a 6 de janeiro de 1919, Dona Tututa revelou desde muito cedo um talento invulgar para a música. Numa época em que a vida noturna era praticamente um espaço reservado aos homens, teve a coragem e o génio de romper convenções, tornando-se uma das primeiras mulheres em São Vicente a afirmar-se como pianista profissional em atuações públicas noturnas. Mais do que um feito artístico, foi um gesto pioneiro que abriu novos caminhos para a presença feminina na vida cultural cabo-verdiana.
Com uma sólida formação musical, soube unir a disciplina do piano clássico à espontaneidade da morna e da coladeira. Dessa fusão nasceu um estilo absolutamente pessoal, reconhecido pela elegância da execução, pela riqueza harmónica e pelo inconfundível balanço da mão esquerda, que marcou gerações de músicos e passou a fazer parte da identidade sonora de Cabo Verde.
O Silêncio dos Grandes Palcos e o Esplendor da Criação
Após o casamento, mudou-se para a ilha do Sal, onde constituiu uma numerosa família e viveu grande parte da sua vida. Embora dedicada ao lar e à envolvência familiar, nunca abandonou a música. O piano permaneceu o centro da sua existência e a sua alma criativa continuou a compor obras que hoje integram o património musical imaterial cabo-verdiano.
Entre as suas composições mais conhecidas destacam-se:
"Vida Torturada"
"Grito d'Dor"
"Sentimento"
"Mãe Tigre"
Estas e tantas outras melodias enriqueceram profundamente o cancioneiro nacional. As suas obras foram interpretadas por alguns dos maiores vultos da nossa música — entre eles Cesária Évora, Bana, Humbertona e a sua filha Magda Évora —, contribuindo decisivamente para perpetuar o seu legado junto de sucessivas gerações.
O Resgate e o Reconhecimento Tardio
Apesar do seu extraordinário talento, Dona Tututa viveu durante muitos anos longe dos grandes centros de divulgação e da indústria musical. Ainda assim, a justiça do reconhecimento acabou por chegar. Em 1966 gravou o seu único disco de originais e, décadas mais tarde, a sua obra foi devidamente redescoberta e valorizada através de novas interpretações, estudos biográficos e do belíssimo documentário "Dona Tututa", realizado por João Alves da Veiga.
Recebeu igualmente diversas e merecidas homenagens em vida, destacando-se a atribuição do seu nome à Escola Municipal de Artes da ilha do Sal, imortalizando o seu papel como pedagoga informal e inspiração viva.
O Eco Eterno de um Legado
Dona Tututa faleceu a 26 de janeiro de 2014, aos 95 anos, deixando um legado que ultrapassa largamente as pautas das suas composições. Ela representa uma geração de ouro de artistas que, com talento, perseverança e uma enorme discrição, ajudou a construir os alicerces da música cabo-verdiana contemporânea.
Quem percorre hoje as ruas do Mindelo talvez já não escute o som do seu piano a ecoar diretamente pelos salões de outrora. No entanto, encontrará a sua presença em cada morna tocada com verdadeiro sentimento na Rua de Lisboa, em cada jovem pianista que procura unir técnica e emoção, e em cada cabo-verdiano que reconhece na música a expressão mais profunda da sua própria identidade.
Mais do que uma extraordinária pianista e compositora, Dona Tututa permanece como o símbolo maior da sensibilidade artística de São Vicente e de Cabo Verde. A sua obra continua viva, lembrando-nos que a verdadeira grandeza não depende do tempo nem da fama, mas sim da capacidade de tocar, para sempre, a alma de um povo.
Redação e Edição: Lucas Leite M. (Deluca)
Foto: Cabo Verde & a Música
Pesquisa e Contexto Histórico: Memórias d'Mindel – preservando a história, as pessoas e o património que fazem a alma da nossa cidade.
Fontes Históricas e Bibliográficas
Pereira, Lourdes (org.). Tututa – Composições. Praia: SOCA / Centro Cultural Português, 2019.
Veiga, João Alves da (real.). Dona Tututa.
Documentário biográfico, 2012 (estreado em 2013).
Arquivos da Radiotelevisão Cabo-verdiana (RTC).
Testemunhos de familiares, músicos e contemporâneos recolhidos em publicações, entrevistas e documentários.