07/09/2026
MEMÓRIAS URBANAS
Quando a água tinha endereço, preço e pregão
"Um vez, diazá na" Mindelo, comprar água fazia parte da rotina diária da cidade.
Antes de a água dessalinizada entrar definitivamente no quotidiano dos mindelenses, antes das redes modernas de abastecimento e muito antes de bastar abrir uma torneira, havia as nascentes, os depósitos, as latas de vinte litros, as filas e as mulheres que percorriam as ruas vendendo aquilo que talvez fosse a mercadoria mais indispensável de todas: água.
E havia o pregão.
“Uli àga de Madéral!”
“Mais barata que a da Vascônia!”
A história das Águas do Madeiral está ligada a um dos maiores problemas da formação e crescimento do Mindelo: a escassez de água.
No século XIX, a cidade dependia de poços, fontes e da água trazida de outras localidades. Em 1880, o próprio administrador do concelho considerava a canalização das nascentes do Madeiral e Madeiralzinho uma solução necessária para o abastecimento da cidade.
Em 4 de dezembro de 1884, foi concedida a George Rendall, Manuel Gomes Madeira e Aleixo Justiniano Sócrates da Costa autorização para realizar as obras necessárias à canalização das águas das propriedades do Madeiral e Madeiralzinho para abastecer o Mindelo e os navios que demandavam o Porto Grande.
O projeto concretizou-se em 27 de maio de 1886, quando as águas das nascentes do Madeiral chegaram finalmente à cidade através de uma canalização com cerca de 10 quilómetros. A Empresa das Águas do Madeiral passava assim a desempenhar um papel fundamental no abastecimento de Mindelo.
Foi uma obra de enorme importância para uma cidade que crescia ao ritmo do seu porto.
O Madeiral chegou também ao coração da cidade
Para receber, armazenar e distribuir essa água foram construídas várias instalações.
Uma delas situava-se no Lombo de Tanque; outra, no Monte; e uma terceira foi instalada no centro da cidade, no Largo do Madeiral.
Esta última compreendia escritórios, casa do guarda e um pátio murado com árvores e plantas. Segundo uma descrição histórica, possuía dez torneiras e, posteriormente, foram construídos tanques para lavagem de roupa.
O próprio largo acabou por ficar associado à empresa e à água que ali chegava. O espaço que conhecemos hoje como Praça Baltasar Lopes da Silva teve, ao longo da sua história, várias designações, entre elas Largo da Estação e Largo do Madeiral. A documentação patrimonial relaciona a primeira construção ali existente, de 1886, com a família Rendall, ligada à Empresa das Águas do Madeiral.
“Water Works, St. Vincent, C.V.”
É neste contexto que ganha particular valor a fotografia que acompanha esta memória.
A imagem mostra uma das antigas instalações do sistema de abastecimento de água de São Vicente, com a população a circular em torno daquele espaço.
Ou seja, o Madeiral e o ato de ir buscar água ficaram também registados na fotografia e nos postais que circularam pelo mundo.
Não era apenas uma infraestrutura. Era uma paisagem humana.
A lata de vinte litros
A água do Madeiral era vendida em latas de vinte litros.
Segundo a memória recolhida por Manuel Brito-Semedo do Esquina do Tempo, uma lata custava dois tostões e destinava-se sobretudo à serventia da casa.
Ali, a população fazia fila desde muito cedo para comprar a água, utilizando vales correspondentes ao preço da lata. À volta das entradas concentravam-se também mulheres e meninas que aproveitavam o movimento para vender comida e outros produtos.
A água, portanto, criou a sua própria pequena economia.
Havia quem a comprasse.
Havia quem a transportasse.
Havia quem a vendesse.
E havia quem anunciasse a sua chegada pelas ruas.
Madeiral ou Vascónia?
Mas nem toda a água era igual aos olhos dos mindelenses.
A água do Madeiral era, sobretudo, a água da serventia da casa.
Para beber, muitas famílias preferiam a água da Vascónia, proveniente das nascentes do Tarrafal de Monte Trigo, em Santo Antão. A empresa Ferro & Companhia transportava-a para São Vicente nos conhecidos “vaporins d’ága”, mantendo um depósito na Vascónia, em frente à Capitania e ao "antigo" Pelourinho de Peixe.
E havia uma diferença de preço.
A memória registada por Brito-Semedo aponta para dois tostões por uma lata de vinte litros de Madeiral, contra quatro tostões pela água da Vascónia, considerada de melhor qualidade e usada sobretudo para beber.
Era publicidade feita com a voz.
Daí que o pregão tivesse também uma função comercial:
“Uli àga de Madéral!
Mais barata que a da Vascônia!”
As mulheres da água
A história do Madeiral não pode ser contada apenas através das empresas, das canalizações e dos depósitos. É preciso falar também das mulheres que carregavam a água.
Eram elas que muitas vezes colocavam a lata à cabeça, percorriam as ruas e levavam a água até às casas. Um testemunho publicado por Valdemar Pereira recorda precisamente essas vendedeiras e os seus pregões:
“Uli àga!” e “Comprà àga.”
O mesmo testemunho recorda a venda da água diretamente às portas das casas. É aqui que a fotografia ganha uma dimensão especial. As figuras que vemos diante das “Water Works” deixam de ser personagens anónimas de um velho postal e passam a representar um quotidiano que existiu realmente no Mindelo.
Como nos relata a leitora Nita Ferreira: "Lembro-me de um nome de mulher " Emitéria" que todos os dias chegava à nossa porta com a lata de 20l - aga d'maderal e 1 vez por semana, água de vascónia. Era uma combinação entre minha mãe e ela, a Emitéria. Isso, nos tempos de diasá na munde".
Uma cidade que aprendeu a viver com a falta de água
A chegada do Madeiral não resolveu definitivamente o problema. A quantidade disponível era insuficiente para as necessidades crescentes da cidade e, com o passar dos anos, as nascentes foram perdendo caudal e qualidade. Em 1889, a questão do abastecimento de água continuava a ser considerada uma das questões vitais para o progresso do Mindelo.
Novas soluções foram procuradas. Contudo, o Madeiral deixou uma marca profunda — tão profunda que “beber a água do Madeiral” passou a ganhar um significado que ultrapassava a sede. Na memória identitária de São Vicente, dizia-se que quem bebesse a água do Madeiral jamais deixaria de se sentir mindelense ou são-vicentino.
Talvez por isso o Madeiral seja muito mais do que uma história de água: é uma história de pertença.
Imagine-se o Mindelo de então. Uma mulher surge na rua com a lata à cabeça; a cidade segue o seu ritmo entre o Porto Grande, o comércio e o burburinho das casas. De repente, uma voz rompe o ruído da rua com a promessa: “Uli àga de Madéral! Mais barata que a da Vascônia!”
Era assim que uma cidade enfrentava diariamente uma das suas maiores exigências. E é assim que uma simples frase, guardada na memória coletiva, nos permite hoje ouvir uma rua do Mindelo que o tempo levou.
Pesquisa, Cruzamento de fontes, Contexto histórico, Redação e edição: Lucas Leite Monteiro (Deluca)
Memórias d'Mindel – preservando a memória, a história, as pessoas e o património que fazem a alma da nossa cidade.
Foto: “Water Works, St. Vincent, C.V.” — Postal histórico das antigas instalações do sistema de abastecimento de água de São Vicente, associado às Águas do Madeiral.
FONTES | DOCUMENTAÇÃO
Fontes e referências Bibliográficas
* Lire Cap-Vert — Cartes postales / Postais, coleção de postais históricos de Cabo Verde.
* Manuel Brito-Semedo, “Nôs Terra, Nôs Gente – Água do Madeiral e da Vascónia em São Vicente”, 19 outubro 2022.
* Manuel Brito-Semedo, Esquina do Tempo — Crónicas de Diazá, memória sobre a água do Madeiral e o Largo da Estação.
* Arrozcatum — “As fontes de S. Vicente”, com referências a João Augusto Martins e aos relatórios administrativos do século XIX.
* Estudo de José Évora — Poder e Recursos em Santo Antão, documentação histórica sobre a concessão de 1884 e o abastecimento de água do Mindelo.
* Odyssea — Praça Baltasar Lopes da Silva, informação patrimonial sobre o antigo Largo do Madeiral.
Nota editorial: no texto, mantém-se Madeiral como grafia histórica/geográfica padrão e “Madéral” apenas dentro do pregão, respeitando a forma como a memória oral cabo-verdiana o registou.