Cordel capixaba

Cordel capixaba Esta é uma página dedicada aos poetas, trovadores e cordelistas capixabas que aqui poderão mostrar a sua arte

24/08/2019

A força do dever.

Vendo a força do dever
Me restou obrigação
Nada tendo pra perder
Busquei na religião
Alguém pra me esclarecer
Mesmo não tendo razão.

Nessa força do dever
O infante se agiganta
F**a dono do querer
No fazer não desencanta
Tem no nobre proceder
Uma força que encanta.

Tem no seu nobre trabalho
O pão que o alimenta
Não tem medo do orvalho
Chuva não é sofrimento
Não se envolve no baralho
Cultiva o bom sentimento.

Ele à casa sempre volta
No final de mais um dia
Não precisa de escolta
Tem em si a honraria
Contra nada se revolta
Sua paz é galhardia.

O dever foi o exemplo
De um forte que viveu
De acordo com o seu tempo
Ao Poder obedeceu
Também frequentou o templo
Onde Deus reconheceu.

Apesar das ameaças
Do poder da confraria
Das mentiras e trapaças
Da vingança e covardia
Nunca caiu em desgraça
A mulher o protegia.

Fez da sua inteligência
Uma fonte de alegria
Sempre soube que a ciência
É o poder da tirania
Que faz com a inocência
Armas que ninguém diria.

Foi à fonte do saber
Pra buscar conhecimento
Não parou de aprender
Desprezou o sofrimento
Sua força era um prazer
Que não dava isolamento

Viu a força do saber
Derramar conhecimento
No seu lento caminhar
Ouviu o seu chamamento
Para a um faminto dar
Agasalho e alimento.

O dever é patrimônio
Do poeta sem valor
É um sonho desumano
De quem sofre por amor
Faz esforço sobre-humano
Pra viver com a própria dor.

Muitos dotes são pedidos
Pra salvar uma criança
Muitos gritos são ouvidos
De quem só fala em cobrança
Mas no seu olhar contido
Ele guarda a esperança.

Vai com tudo na batalha
Que travou sempre consigo
Sempre leva a sua tralha
Não incomoda o amigo
Vê na sombra da muralha
O portal do seu abrigo.

Quer somente o bem estar
Da mulher que sempre amou
Vai com ela passear
E pergunta se gostou
Nesse lento caminhar
Diz que ela o conquistou.

Vê na vida o seu passado
Mas não teme o seu futuro
Sabe que tem ao seu lado
A mulher, porto seguro,
Para o seu destino alado
Guardado em lugar seguro.

Hoje não tem o seu par
O destino a recolheu
Mas ouviu ela falar
Que o amor permaneceu
Quando o seu dia chegar
Vai morar no que é seu.

Se sofreu algum senão
A mulher o amparou
Carregou no coração
A mulher que sempre amou
Quando ela disse não
Ele sempre a acatou.

Hoje está agasalhado
E olhando o firmamento
Sabe que foi muito amado
Não guardou ressentimento
Tem espaço reservado
Pra buscar discernimento.

11/08/2019

Ser pai.

Ser pai é um privilégio
Que nem todos sabem ter
É levar filho ao colégio
Também ensinar a ler
Ao bom pai eu sempre invejo
Porque pai não soube ser.

Sou um pai já destroçado
Pela agrura do destino
Sei que fui um mal amado
Pela mãe do meu menino
Eu também fiz o pecado
De não dar pão e ensino.

Hoje tenho o dissabor
De rever o meu passado
Nele tive o desamor
Por dar passo mal pensado
Respondi negando amor
Hoje sei que fiz errado.

Revisando o meu destino
Procurei andar mais certo
Deixei de ser clandestino
Fiz meu coração aberto
Reconheci no menino
O meu filho muito esperto.

Toda a minha existência
Foi vivida em solo fraco
Faltou-me a inteligência
Talvez tenha sido um fraco
Também tive a competência
De andar vestido em trapo.

Muitas vezes procurei
Viver só facilidade
Nesse viver descansei
Não tive tenacidade
Meu filho não eduquei
Estraguei-lhe a mocidade.

Nessa forma de viver
Encontrei os desenganos
Que mudaram o meu viver
Pra diminuir os danos
Porém o meu padecer
Vai durar mais alguns anos.

Vou seguir meu caminhar
Fazer votos de pobreza
Vou reconstruir meu lar
Sem buscar qualquer riqueza
Procurar meu bem-estar
Pra saber o que é beleza.

A beleza é algo triste
Quando não tem quem a vê
Ela em si jamais existe
Também não sabe o porquê
Que o mais belo preexiste
Ao mais lindo alvorecer.

O mais belo é o prazer
De um bom filho educar
Um abraço receber
Sem por ele esperar
O filho reconhecer
Que seu pai é singular.

Nesse filho o pai rever
O sinal da gratidão
De ser pai não esquecer
Ao filho estender a mão
Demonstrar no proceder
Como é seu coração.

Muitos filhos que hoje são
Instrumentos da maldade
Não tiveram o seu quinhão
Da real fidelidade
Aprenderam no sermão
A viver fatalidade.

Não tiveram como ouvir
Num momento de prazer
Um conselho pra subir
Na escala do dever
Aprenderam a perseguir
As vantagens do poder.

E depois de muito andar
Esqueceram até do pai
Que não soube caminhar
E não sabe aonde vai
Sem jamais poder voltar
Segue a sorte que o trai.

07/06/2019

Alma de mendigo.

Caminhando na calçada
Um pedinte me acenou
Eu disse estar atrasado
Ele então se desculpou
A mim não disse mais nada
Nem sequer balbuciou.

Eu segui o meu caminho
Sem sequer imaginar
Que aquele ser sozinho
Não tinha o que almoçar
Esqueceu o que é carinho
Já nem sabe o que é um lar.

Me senti atormentado
Perguntei à consciência
Qual foi o maior pecado
Eu mostrar tal prepotência?
Ou eu ter ignorado
Alguém por impaciência?

Não conseguia fazer
Meu trabalho a contento
Não cumpria o meu dever
Não firmava o pensamento
Quando ouvi alguém dizer
Sobre um atropelamento.

Perguntei sem atenção
Quem foi o atropelado
Ouvi ser um ancião
Sujo e mal arrumado
Que estendia a sua mão
Esperando algum trocado.

Eu senti um calafrio
Ao ouvir tal argumento
Aceitei o desafio
De saber o ferimento
Eu senti estar vazio
Ao pensar no sofrimento.

Ao saber do ocorrido
Sem saber o que fazer
Um pouco desiludido
Querendo o mal desfazer
No final, reconhecido,
Nada mais pude fazer

Perguntei a um doutor
Se havia uma esperança
Ele disse: há muita dor
Mas ninguém fala em vingança
O doente é um senhor
Que já viveu na bonança.

Perguntei quem era ele
O doutor me respondeu
O paciente era aquele
Mendigo que ofereceu
A fortuna que era dele
Para o filho que nasceu.

Na infância o seu garoto
Fez bastante trapalhada
Era um malandro solto
Procurava fazer nada
Geralmente muito afoito
Tinha a vida desregrada.

Não respeitava o limite
Bastante mal educado
Fazia o que não permite
O homem bem comportado
Todavia hoje admite
Que agiu de modo errado.

Fui perguntar ao mendigo
Que estava medicado
Se ele tinha algum amigo
Ou parente aproximado
Perguntei se eu consigo
Ser por ele desculpado.

Ele me olhou e disse
Nada tenho a perdoar
E que nunca mais pedisse
O que não pode me dar
E se nisso eu insistisse
Ele iria se zangar.

Foi ali que conheci
A grandeza interior
Do mendigo que eu vi
Dando prova de amor
Ali mesmo eu resolvi
Fingir ser provocador.

Provoquei ao comentar
Que fingira não ouvir
Ele respondeu não dar
Atenção a quem subir
Pois abaixo sempre está
De quem quer contribuir.

Disse que naquele gesto
Demonstrei bem não estar
Na alma carrego um resto
Do qual só vou me livrar
Quando eu sentir manifesto
O desejo de amar.

Então vi naquela alma
Que me pediu uma ajuda
Uma indiscutível calma
Suportando dor aguda
Tinha um espelho na alma
Dizendo: não me iluda.

Eu lhe ofereci abrigo
Ele disse, por favor,
Apesar de ser antigo
E não ter um cobertor
Vivendo com o inimigo
Sou da paz mediador.

Siga o seu caminho em paz
Sempre dê um bom conselho
Saiba que quem o bem faz
Consegue esquentar o gelo
Olhe sempre para trás
Seja de Deus o espelho.

19/05/2019

Fome de amor.

No deserto que há na alma
De qualquer competidor
Há um sal que lhe acalma
Diminui a sua dor
Sempre traz alguma calma
Pro carente de amor.

Esse deserto ignoto
Faz a sombra caminhar
Faz o destro ser canhoto
Faz o céu modificar
Faz o vivo ver o morto
Na caverna a meditar.

Faz o monge paciente
Sem pensar, esbravejar,
Faz o jovem inconsciente
Estar sempre a conversar
Faz o velho impaciente
Da memória reclamar.

Muitos têm o seu deserto
Mas não sabe que ele existe
Diz que Deus está por perto
Entretanto não resiste
A dizer ser o mais certo
Colocando o dedo em riste.

Faz do sol o seu carrasco
Ignora o esplendor
Faz da vida o seu fiasco
Não tem paz e nem calor
Quando fala causa asco
Ao mais fino servidor.

Sua casa no deserto
É a folha da palmeira
Que deixa o sinal aberto
Pra viagem costumeira
Mostra o caminho certo
Pra caravana estradeira.

A caravana estradeira
Tem também o seu deserto
Ela segue a costumeira
Rota que sempre deu certo
Mas um dia dá bobeira
E perde o caminho aberto.

No deserto há uma ilha
Que se vai pra descansar
La está uma família
Sempre pronta a esperar
La ninguém m***a quadrilha
Pro caminhante assaltar.

Essa ilha no deserto
Não é foco de discórdia
Em geral quem está perto
Pede para haver concórdia
E quem tem o peito aberto
Vai ganhar misericórdia.

Se alguém perder a vez
De na ilha descansar
Do sofrer será freguês
Sem direito a reclamar
Pois foi sua estupidez
Que o fez descaminhar.

Essa ilha não tem dono
Não tem chefe ou portaria
O porteiro é o mordomo
Que arruma a prataria
Não se fala em abandono
Não se ouve gritaria.

Não há chefe na cozinha
Cada um come o que quer
A mulher anda sozinha
Com a roupa que tiver
Todos têm sua casinha
Pra viver como quiser.

Há um frasco sobre a mesa
Que uns poucos reconhecem
Não pertence à realeza
Que a si mesma desconhece
Ele mostra uma beleza
Que o deserto desconhece.

Esse frasco de virtude
É chamado de oferenda
É a fonte da saúde
É perfeito e sem emenda
Suas cores amiúde
Dão sabor para a merenda.

Não se chama testemunha
Não há véu pra se esconder
La não há nome ou alcunha
Nem chamado a responder
La ninguém vai roer unha
Por medo de perecer.

Essa ilha não tem nome
É chamada coração
Ela sempre sente fome
Mas jamais aceita um pão
Só uma coisa ela come
Com total satisfação.

Esse alimento estranho
Que pra uns não tem valor
Não é trocado por ganho
Não se acha vendedor
Não tem cor e nem tamanho
Mas tem um nome – AMOR.

12/05/2019

Uma pequena homenagem a todas as mães.

Ser mãe.

Abordar tema sagrado
É deveras temerário
E também é delicado
Tocar em tema diário
Mas ter mãe é desejado
Por quem vive o seu ordálio.

Vem da própria natureza
O desejo de ser mãe
Ver no filho uma beleza
Própria do olhar de mãe
Fazer dele a fortaleza
Para proteção da mãe.

Esse desejo inaudito
Que habita o universo
É a voz do infinito
Que no seio está imerso
E um ser que solta um grito
Implorando o seu regresso.

É a voz imaculada
De quem é o Criador
Cuja mãe, ignorada,
Não falou se sentiu dor
A verdade confirmada
Ela é o próprio amor.

Mãe de Deus não é Maria
Muito menos uma mulher
É a mãe que todo dia
Dá o filho o que tiver
Ensinando a alegria
De viver como puder.

Se a mãe não ensinasse
O filho que concebeu
Desde a hora que ele nasce
A tomar do leite seu
Haveria um desenlace
E na certa não viveu.

Ser mãe é múnus sagrado
É sofrer no paraíso
É dar vida ao esperado
Esperar o seu sorriso
É ficar do filho ao lado
Se houver sobreaviso.

Ser mãe não é simplesmente
Trazer o seu filho ao mundo
É fazê-lo consciente
Com um desejo profundo
E saber que de repente
Ele cai num poço fundo.

Mas a mãe la estará
Com a mão sempre estendida
Muito esforça ela fará
Pra dar uma nova vida
E jamais aceitará
Ver a batalha perdida.

Se o filho tomar jeito
Ela vai buscar apoio
Diz que ele está perfeito
Separou trigo do joio
Para ela é sem defeito
Como o mais limpo arroio.

Se alguém a aborrece
Ela canta uma canção
E assim ela arrefece
A dor da ingratidão
Com um sorriso agradece
Um aceno com a mão.

Ela não sabe o destino
Que o filho vai tomar
Porém sabe que o ensino
Na certa vai ajudar
Estimula o seu menino
A sentar para estudar.

Na hora da refeição
Ela põe o filho à mesa
Antes faz uma oração
E mantém a vela acesa
Essa vela é tradição
Mas pra si sé a defesa.

Quando o filho se casar
E formas nova família
A mãe perto vai estar
Vê a nora como filha
E quando o neto chegar
Recomeça a sua trilha.

Ela vai fazer um chá
Pra curar dor de barriga
Diz pra nora descansar
Concilia quando há briga
E na hora de mamar
Ela ensina à moda antiga.

Quando o marido reclama
Diz estar abandonado
Ela mostra o quanto ama
Ele não fez nada errado
Quando se deitam na cama
Eles lembram o passado.

Lembram as dificuldades
E as noites indormidas
Fracassos na mocidade
Erros pra vencer na vida
Sentem as dores da idade
Mas venceram a subida.

Pra ser mãe é necessário
Capacidade de amar
É marcar no calendário
Quando o filho vai chegar
Abraçando o seu rosário
Vai de Deus se aproximar.

11/05/2019

A idade da razão.

Estou velho e alquebrado
Na idade da razão
Mas eu vivo conformado
Por ter minha opinião
Em geral sou respeitado
Mesmo velho e pobretão.

Esqueceram que um dia
Eu fui moço e abracei
A formosa companhia
Que no baile acompanhei
Soube esperar o dia
Pra ter a mulher que amei.

Esqueceram que esse moço
Foi um dia o capataz
Que doou o seu almoço
Para poder tirar a paz
Da moça que deu caroço
Há muito tempo atrás.

Essa moça que hoje está
Residindo em outro chão
Esqueceu que nunca há
Meia volta no salão
Que nunca mais poderá
Apagar a humilhação.

Assim mesmo prossegui
Novos bailes freqüentando
Novas damas consegui
Pra continuar dançando
Meu futuro eu persegui
Minha mulher procurando.

Freqüentei alguns bordéis
Na esperança de encontrar
Nas mulheres infiéis
O prazer de namorar
E rimando os meus cordéis
Evitava de pagar.

Assim ia caminhando
Vendo a vida caminhar
Quase sempre ia cantando
À procura do lugar
Onde houvesse alguém bailando
Para ali também bailar.

Muitas vezes pernoitei
Nas encostas das fazendas
Muitas vezes escutei
Vozes por demais horrendas
Que diziam não dancei
Mas estraguei as merendas.

Outras vezes que dormi
No colchão que eu deitava
Ali sempre eu percebi
Que era dele que eu gostava
Aos poucos diminuí
Os bailes que procurava.

Fui aos poucos assumindo
Minha condição de pai
Meu prazer diminuindo
Na noitada que se esvai
Acabei constituindo
Um lar que nunca me trai.

Meus prazeres de ancião
Hoje trago bem pensado
Deram-me a desilusão
De estar ultrapassado
Mas também a ilusão
De estar mais preparado.

Na idade da razão
Fiquei mais equilibrado
Sempre ofereço a mão
Ao mais desafortunado
Aprendi que dizer não
É pra ser sempre evitado.

Meus cabelos já grisalhos
Recomendam que me cuide
Não procure por atalhos
Da minha casa não mude
Se andar entre cascalhos
Da prudência não descuide

Sou assim arrazoado
Meu viver não foi em vão
Meu destino está ornado
Pelo amor do coração
Que eu dou ao ser amado
Sem ter retribuição.

30/03/2019

Rumo ao desconhecido.

Caminhei em uma estrada
Rumo ao desconhecido
Uma estrada esburacada
Escura e sem ter sentido
Ia sem pensar em nada
No meu mundo recolhido.

Fui andando lentamente
Sem ter hora pra chegar
Repetindo inconsciente
De mim nada vou lembrar
Apaguei o meu presente
Ao passado eu vou voltar.

Ia assim fazendo planos
Para não lembrar de mim
Esquecendo muitos danos
Que causei por ser assim
Carregando os desenganos
Que não consegui por fim.

Todos os males que causei
Encontrei pelo caminho
De nenhum eu desviei
Eles eram como espinho
Porém não desesperei
Esperava estar sozinho.

Nisso então eu percebi
Que sou parte de um todo
Com quem me comprometi
E que atirei no lodo
É quem hoje eu recebi
Para cuidar com denodo.

Fui então me desculpar
Com um antigo conhecido
Ele nada quis falar
Diz que sou um possuído
Se negava a me olhar
Dizendo ser eu perdido.

Não prestei muita atenção
Decidi permanecer
No lugar que a solidão
Disse para eu conhecer
La eu vi um ancião
Procurando o que fazer.

Perguntei qual interesse
Eu teria em vigiar
E se eu intercedesse
Poderia atrapalhar
E se me reconhecesse
Poderia se vingar.

A solidão respondeu
Nada de se desculpar
Aqui nada aconteceu
De nada vai se lembrar
Tudo aquilo que perdeu
Aqui vai recuperar.

Eu pedi humildemente
Que deixasse eu prosseguir
Iria seguir em frente
Sem qualquer coisa exigir
A solidão disse que sente
Mas eu não posso seguir.

Meu caminho eu não conheço
Sigo caminhando ao leu
Meu igual não reconheço
Devo retirar o véu
Para ver se eu mereço
Um pedacinho do céu.

Ao ouvir essa menção
Percebi estar errado
Talvez não tenha perdão
Isso estou acostumado
Mas vou estender a mão
A quem está ao meu lado.

Então vi a solidão
Disfarçar seu sofrimento
Sorriu com aprovação
Ao ler o meu pensamento
Viu em mim sua missão
Alcançar o seu intento.

Depois disso eu fui em frente
Mas mudei o meu caminho
Dei auxílio permanente
Ao estranho e ao vizinho
Descobri que pra ser gente
Ninguém pode andar sozinho.

Encontrei uma mulher
Que dizia viajar
Para ver quem não a quer
Mas precisa acostumar
Pois quando o pior vier
Dela sempre irá lembrar.

Eu lhe disse pra deixar
Cada um seguir a vida
Nada irá adiantar
F**ar presa nessa lida
Vai na certa se atrasar
No caminho da subida.

Ela então me perguntou
Se podia andar comigo
Eu lhe disse que estou
Como ela, sem abrigo,
Mas o pouco que restou
Ofereço a um amigo.

Nela então reconheci
O amor da minha infância
De repente eu descobri
Que a sua alma avança
Eu com ela então segui
Ao encontro da esperança.

16/03/2019

A vingança.

A vingança tem desejos;
Quase sempre inconfessáveis;
Às matanças dá ensejo;
Por motivos contornáveis;
Não está no que eu almejo;
Que são coisas derrogáveis.

A vingança é violência;
Que aumenta a si também;
Já perdeu a competência;
De saber de onde vem;
Seu autor, sem paciência;
Pensa que isso é um bem.

Todos podem se vingar;
Muitos pensam sempre assim;
Por certo vai se enganar;
Vai se arrepender no fim;
Não se deve recriar;
O que Jesus pôs um fim.

Sempre que ouvir falar;
Que alguém é violento;
Não se ponha a concertar;
Lhe dando conhecimento;
Se puder mostre o altar;
Onde há discernimento.

Não lhe reprove a conduta;
Talvez exista razão;
Não comente o que escuta;
Não se meta a sabichão;
Se lembre que a bomba curta;
Tem seu dia de rojão.

Pode ser que a alavanca;
Levada pelo conselho;
Dê início à desbanca;
De quem se vê no espelho;
Pode melhorar a banca;
De quem dobra o seu joelho.

Vingar a própria vingança;
É o poder do mais forte;
Vai sofrer em abundância;
Andando de sul a norte;
Vai ver na sua constância;
A força que vence a morte.

Se vingar fosse um direito;
Seria por Deus criado;
Adão seria o primeiro;
A ter o filho vingado;
E José, por derradeiro;
A quantos crucificado?

Se há sangue derramado;
A vingança não o lava;
Se houver um mal falado;
Nunca lhe confie a clava;
Deixe o clima sossegado;
Pois à língua não se trava.

Não altere a sua voz;
Não discuta sobre Deus;
Não desafie o algoz;
Não o ponha entre os seus;
Seja sempre o mais veloz;
Siga à frente dos ateus.

Não dê chance à violência;
Vá pelo lugar seguro;
Não despreze a paciência;
Não caminhe no escuro;
Mostre a sua sapiência;
Não saltando sobre o muro.

Seja sempre comportado;
Cumpridor do seu dever;
Honre sempre o seu contrato;
Mostre sempre ter prazer;
Mesmo quando der errado;
Se antecipe em refazer.

Não se mostre acabrunhado;
Por não poder se mudar;
Do lugar mal afamado;
Ou de longe trabalhar;
Veja que o desempregado;
Que sua vaga ocupar.

Tenha medo de orgia;
Não se envolva em confusão;
Seu viver – dia-a-dia;
Sempre lhe dará razão;
Se lembre que a anarquia;
É mãe da corrupção.

Essas linhas são apenas;
Meus conselhos ao amigo;
Não são palavras serenas;
Mas serei compreendido;
Também não são tão extremas;
Pra que eu não seja entendido.

09/03/2019

A voz do pensamento.

Ao fazer meu juramento
De mudar a minha vida
De mudar comportamento
Cumprir a voz prometida
Descobri que o pensamente
É a voz comprometida.

Todo pensamento meu
Caminhava pro abismo
Procurava o que perdeu
Dentro do seu comodismo
De se olhar desaprendeu
Vivendo o seu ostracismo.

Caminhava sem destino
Rumo a lugar nenhum
Se eu via um assassino
Eu pensava ser comum
Se ouvia algum ensino
Eu dizia ser mais um.

Levantava sempre cedo
Pra seguir minha viagem
Is escolhendo a dedo
Pra colocar na bagagem
Mas também levava medo
De ser pego em vadiagem.

Uma voz dizia assim
Tu és parte do infinito
Aproveite o dia a dia
Pra ter dia mais bonito
Use sempre a alegria
E não fale usando grito.

Não pragueje contra Deus
Não caminhe no escuro
Não se junte com ateus
Nunca salte sobre o muro
O melhor que der aos seus
Vai fazer o deu futuro.

São conselhos da estrada
Que você está pisando
Essa voz não sai do nada
Vem de quem está pensando
Siga a sua caminhada
Pra onde está andando.

Seus retalhos de fracassos
Servirão pra refazer
Os já destruídos laços
Rompidos por esquecer
De oferecer os braços
Pra diminuir o sofrer.

Ao seguir a caminhada
Eu ouvi a mesma voz
Dizendo que a minha estada
Estava chegando à foz
Minha hora era chegada
E eu seguiria a sós.

Nessa hora eu despertei
Era um sonho mal sonhado
Entretanto eu me lembrei
Que estava abandonado
Pro meu lar eu caminhei
Mesmo estando desolado.

Ao aproximar da casa
Eu ouvi um som estranho
Meu fogão não tinha brasa
Tinha um lamento tamanho
Numa pia de água rasa
Vi a filha tomar banho.

Perscrutei a consciência
Perguntando o que fazer
Ela disse que a inocência
Pode me compreender
Entretanto a paciência
Preciso desenvolver.

Eu então bati na porta
Minha mulher atendeu
Disse que estava morta
E de mim já esqueceu
Que a mim já não suporta
Seu marido já morreu.

Eu fiquei ali parado
Ouvindo o que ela dizia
Me senti envergonhado
Com aquilo que eu fazia
Quando olhei pro outro lado
Minha filha me sorria.

Sem nada me perguntar
Minha filha me abraçou
Vi minha mulher chorar
Perguntou como eu estou
Quando eu quis lhe abraçar
De mim ela se afastou.

Respondi que estava bem
Mais maduro, pois sofri,
Com a falta de alguém
Que jamais eu esqueci
Não lhe trouxe nenhum bem
Mas agora esta ali.

Ela então me abraçou
Disse que também sofreu
Que também me perdoou
Sabe agora quem sou eu
Sou um homem que voltou
Pra cuidar do que é meu.

A olhei dentro dos olhos
Pra dizer o quanto amei
Removi todos os abrolhos
Que na vida eu encontrei
Quando eu fechar os olhos
Paz no lar eu deixarei.

04/03/2019

A morte do planeta.

O planeta este morrendo
Isso é possível ver
Rios desaparecendo
As florestas a arder
A miséria só crescendo
Muitos morem sem comer.

As m***anhas removidas
Pro minério retirar
As lagoas destruídas
Para a cidade aumentar
Alguns não têm mais saída
Não têm onde trabalhar.

Os jardins não têm mais flores
Só tem grama mal cuidada
Nas favelas os malfeitores
Travam uma guerra armada
Nas escolas os professores
Não conseguem ensinar nada.

As pesquisas nas lavouras
Mudam o gene das sementes
Morenas querem ser louras
Pensam ser inteligentes
As louras as peles douram
Para ficar atraentes.

Os homens por sua vez
Acham ser isso normal
Pensam ser insensatez
Manter tudo ao natural
Fingem tanta polidez
São no fundo um animal.

A ciência que avança
Busca a vida melhorar
Prometendo a abastança
Não consegue contornar
A tibieza da gastança
Dos que estão a governar.

As leis são modificadas
Para ajuste das razões
Quase sempre são mudadas
Ajuste às ocasiões
Muitas vezes deturpadas
Pra desvio de milhões.

Há famílias sem um teto
Há crianças sem um lar
Pode-se matar o feto
Isto é assassinar
É perder todo o afeto
Por quem não pode falar.

O ab**to é praticado
Com amparo do governo
O país é assaltado
Por desmando e desgoverno
No fim tudo é abafado
Todos querem ser governo.

O salário é confiscado
Sob o nome de imposto
O honesto é violado
Para o próprio desgosto
Pois se vê violentado
Na moral e no seu rosto.

Muitos que moram na roça
E que vivem do trabalho
Em geral moram na choça
Com o piso de cascalho
Sequer sabem o que é fossa
Seu café é o orvalho.

Pra quem mora na cidade
Talvez falte ocupação
Pra ter eletricidade
E ter gás no seu fogão
Vai precisar de vontade
E também disposição.

Tudo isso está matando
O planeta que vivemos
Vamos nos acostumando
Esquecendo o que sabemos
Nosso tempo vai passando
E fingimos que não vemos.

Mas a terra está morrendo
Isso é fato consumado
Hoje estou só escrevendo
Amanhã serei passado
Quero que fiquem sabendo
O homem está condenado.

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Vitória, ES
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