11/11/2025
🕯️ A MORTE BRANCA
Chamavam-na de A Morte Branca. O nome corria de boca em boca como um sussurro proibido, repetido apenas em noites de inverno, quando o vento fazia tremer as janelas. Não era apenas superstição: todos em Karmov conheciam alguém, de tempos antigos, que havia sido levado por ela.
A aldeia ficava encravada entre montanhas escuras, onde o sol raramente atravessava as nuvens. No inverno, a neve não caía — desabava sobre tudo. As casas rangiam sob o peso branco acumulado nos telhados, e as ruas sumiam, obrigando os moradores a cavar trilhas estreitas para sobreviver. À noite, o silêncio era quase insuportável. Não se ouvia nem o uivo de lobos, nem o grasnar dos corvos. Apenas o vento, que soprava como uma voz grave chamando nomes esquecidos.
Os anciãos mantinham vivas as histórias. Contavam que, no primeiro inverno da aldeia, uma família inteira foi encontrada sentada à mesa, com os olhos abertos e uma fina camada de gelo sobre a pele. Falavam do lenhador perdido na floresta, achado encostado a um tronco, com o machado ainda firme nas mãos, mas tão pálido que se confundia com a neve. Em todos os relatos, não havia luta, não havia sangue: apenas silêncio e corpos imóveis. E sempre o mesmo detalhe: na noite em que a Morte Branca caminhava, a neve caía sem som algum, como se o mundo tivesse prendido a respiração.
Mira, filha de caçadores, nunca acreditou nessas histórias. Dizia que eram invenções para assustar crianças e manter jovens dentro de casa. Mas certa noite, sem lenha para aquecer a família, saiu sozinha para o bosque. O vento cortava sua pele, e os galhos estalavam sob o peso da neve. Foi então que viu marcas no chão. Não eram de homem, nem de animal. Eram pegadas longas, profundas, mas leves demais, como se o gelo não ousasse segurá-las.
Seguindo o rastro, encontrou uma clareira. No centro, uma figura imóvel. Alta, coberta por um manto branco que se confundia com a neve. Onde deveria haver um rosto, havia apenas um vazio escuro, um buraco de silêncio. Mira não conseguiu gritar. A figura ergueu lentamente uma mão pálida, e o frio que a atingiu não era da noite: era um gelo que invadia o sangue, endurecia os ossos, roubava o sopro da vida.
Correu de volta à aldeia. Conseguiu chegar em casa e sentar-se diante da lareira, mas o fogo não bastava. Por mais que as chamas ardessem, ela nunca mais conseguiu sentir calor. Era como se aquele toque tivesse marcado sua alma para sempre.
Nos dias seguintes, Karmov começou a definhar. Primeiro, os cães pararam de latir, como se pressentissem algo que os homens não viam. Depois, as crianças deixaram de brincar nas ruas cobertas de neve. Então vieram os silêncios maiores: cada manhã, uma casa era encontrada marcada pelo mesmo destino. As famílias eram achadas sentadas, imóveis, com os olhos abertos e a pele tão branca quanto a neve ao redor. Nenhum sinal de luta, nenhuma marca de dor. Apenas um frio absoluto, como se a vida tivesse sido roubada sem resistência.
Mira sabia o que acontecia: a Morte Branca caminhava entre eles. Cada passo silencioso apagava vozes, memórias e lares. O medo crescia não pelo que se via, mas pelo que não se ouvia. A cada noite, menos portas se abriam pela manhã.
Incapaz de esperar pelo seu fim, Mira tentou fugir. Partiu sozinha pela madrugada, atravessando o rio congelado. O gelo rangia sob seus pés, prestes a se partir. Ao olhar para trás, viu a figura de manto branco parada na margem, imóvel, olhando-a sem olhos, erguendo lentamente a mesma mão pálida que já havia sentido uma vez.
Ninguém soube ao certo o que aconteceu depois. Alguns dizem que o gelo se quebrou e o rio a engoliu. Outros juram que ela foi tomada pelo abraço gelado da criatura. Mas todos concordam em uma coisa: Mira nunca chegou ao outro lado.
Até hoje, quando o inverno cobre tudo e o vento silencia a aldeia, viajantes afirmam ver uma jovem imóvel entre as árvores, com o olhar vazio, como parte da própria neve. Uns dizem que é Mira, outros acreditam que já é a própria herdeira da Morte Branca.
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